Opinião

12/03/2014

AÇOITES


Por Mariana Paz


Em “12 anos de escravidão”, filme que traz para a tela do cinema a história do violinista Solomon Northup (homem negro, que teve sua vida interditada e brutalmente modificada após ser traficado), a temática da tortura, no formato de escravidão, cometida contra negros é abordada de maneira singularmente realista, o que gera aos telespectadores a possibilidade de refletir sobre essa forma de violência, ainda tão presente nos dias atuais.

A pele negra de Solomon, adicionada ao seu talento musical foram os fatores que encheram os olhos dos traficantes, os quais viram nele a oportunidade de negociar a sua vida, vendendo-o como um objeto, ou seja, como escravo. A partir de então, Solomon inicia uma extensa travessia pelo sofrimento, onde foi escravizado, torturado e açoitado durante longos 12 anos. É válido afirmar que a crueza da escravidão transmitida em imagens, em que os açoites são marcas indeléveis, rendeu a este marcante filme a premiação do Oscar como o melhor de 2013.

A escravização conta com um aparato de práticas e de discursos retóricos que operam de modo a destituir o sujeito de seu lugar enquanto humano, e a inscrevê-lo num lugar de objeto. Após a experiência de escravização, assujeitado a desordem da tortura, onde se localiza o sujeito subjetivamente? Como constituir-se após uma experiência de esvaziamento onde marcas de açoites são registros simbólicos de um ódio irracional, porém lúcido, visível?

Ser açoitado é mais do que ser castigado fisicamente. É ser marcado psiquicamente por uma dor que não tem nome, que não encontra representação na fala ou na linguagem, é sempre mais do que possamos dizer. É carregar uma marca que a tortura gerou lentamente com requintes que transbordaram a crueldade, que confundem sentimentos de dor, revolta e incompreensão. É ser vítima de um constructo social que cria posições e modelos nos quais os mais vulnerados são alvejáveis, são “açoitáveis”. É ser corpo alvejável, parafraseando o livro de Romildo Rego Barros (Ódio, Segregação, Gozo).

A violência desta modalidade de tortura (a escravidão) retratada pelo filme mobiliza. Mobiliza a fala, a escrita, a defesa de direitos, ou seja, mobiliza a um não silêncio por parte de quem o assiste.

Atualmente, essa tortura exibe novos formatos de demonstração de seu ódio irracional, contra os mesmos sujeitos de outrora e outros grupos historicamente em condição de vulnerabilidade. Hoje, assim como anteriormente, os “açoites” deixam marcas visíveis no cenário social de abandono, segregação e desfavorecimento a sujeitos que colecionam anos de exclusão e negação de direitos. Desta forma, o filme traz para os nossos dias inúmeras reflexões sobre que formas de escravização as pessoas de pele negra, por exemplo, são relegadas na atualidade, ou não há mais corpos “açoitáveis”?

*Mariana Paz é especialista em Psicologia e Direitos Humanos pela Fafire e Psicóloga do GAJOP.

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